domingo, 24 de julho de 2022

terça-feira, 8 de março de 2022



AMOR, MEMÓRIA E PASSADO “ENTRE ROMEUS”

LUIZ OTÁVIO OLIANI *

viver é resistir

ato de coragem

aceitar o desafio

de ser singular

no mundo plural

Julio Corrêa


O título “Entre Romeus”, de Julio Corrêa, traz, ao leitor comum, pelo conhecimento de mundo (e também literário), uma referência ao personagem Romeu Montécchio, do clássico de William Shakespeare, “Romeu e Julieta”. Se no teatro shakespeariano o amor dos personagens culmina em morte; aqui, nos poemas, a concepção do sentimento é totalmente oposta. 

Na abertura da obra, a epígrafe de Caetano Veloso dá um norte à leitura, já que o leitor / ouvinte da letra são indagados sobre quais seriam as cores de predileção. Isto mostra a tentativa de normatizar gostos ou buscar uma identidade individual? Fica a reflexão. 

O livro é dividido em duas partes: “cores quentes” e “cores frias”. A primeira trata da busca pelo amor, sem normatividades ou regras impostas pela sociedade. O território do coração pulsa totalmente livre, com um eu lírico homoafetivo forte, entre desejos e paixões. 

O poema de abertura, com o título do livro “entre Romeus”, mostra uma persona na zona Sul do Rio, com os versos: “voar / amar / é um risco que aceito / entre um Romeu e outro / sorridentes na contramão”. Eis um livro de aceitação do amor, sem ser panfletário ou político-partidário em defesa de um grupo social. 

Ao trazer elementos bíblicos da narrativa para o poema em “Maçã”, com a serpente, o paraíso, o pecado, Adão, o eu lírico se desnuda sem pejo: “desde cedo / eu quis comer / a fruta proibida do paraíso”. E após o sorriso da serpente, o convite aceito para o banquete, cantou o eu em “eu (Adão andrógino)”, como se o amar tivesse regras inflexíveis a serem seguidas. 

No poema “ficante” chamam a atenção: “aceito sua fome e sua sede / nessa nossa vida de mão dupla // entregue às vontades secretas”, sendo este último adjetivo essencial à compreensão dos desejos mais íntimos, porém, resguardados. 

Em “o duplo”, nas salas de musculação, muitos homens escondem os mais profundos anseios, isto porque os corpos másculos se sobrepõem aos anseios da carne. Representam “caças / caçadores / animais duplos // jubas amestradas / carícias entre garras / mordeduras em êxtase // epifania / lambuzam-se / em cilindros de leite”. 

O livro não retrata apenas as glórias do amor. O poema “contramão” traz as dualidades existentes em qualquer relacionamento. Semelhante a casais heterossexuais, já que o homem e a mulher, em relação amorosa, também se decepcionam; com os homoafetivos, não seria diferente. Por isso, o texto “entre flores” apresenta a paixão quando ele “abre o peito atrevido / o desejo me descontrola”, mas Romeu foi embora, deixando um vácuo no coração de alguém. 

O “retrato antigo revisitado” expõe, de forma poética, o desencontrar e encontrar-se no amor, com o surgimento de formas diferentes de amar. Se dois casais heterossexuais, João e Maria; Julieta e Romeu encontraram-se na balada e, se aflorou um desejo diverso do que antes era estabelecido, por que não se poderia viver tal sentimento? 

Nota-se, com todas as forças, a intenção de alcançar a felicidade em “paraquedas” quando, liberto de insubordinações contra o sistema, o eu lírico se mostra firme em propósitos pessoais.

A segunda parte do livro, “cores frias”, revela poemas que não tratam tanto da questão lírico-erótico-homoafetiva. São poucos que aludem a tal temática como “personas zodiacais” e outros. Na seção em voga, não há a ousadia da primeira parte do livro, mas uma contenção, já que o eu lírico se volta a outros temas caros à literatura como a efemeridade do tempo, a morte, a solidão, todos espalhados no volume. Os textos “nascente”, “decepção”, “frondosa natureza”, “gato escaldado”, “eu”, “(a)mar”, “onda”, “maioridade” e “prisão” confirmam a genialidade do autor que poderia comparecer a qualquer antologia da poesia brasileira contemporânea. 

Em “laços maternais”, há uma homenagem à mulher, à mãe, àquela que gera a vida no ventre. Em “cumplicidade”, a relação entre mãe e filho também aparece. Já no poema “Infância”, evocam-se os primeiros anos de vida. Entretanto, a morte do pai é documentada em “ausência”. 

Os versos “olhar longínquo / poucas palavras / sorriso tímido” traduzem uma postura de “reservado”, para se precaver dos invejosos, ainda que existam gestos sinceros e saudosos em relação ao passado. 

Quanto à estrutura dos poemas do volume em si, é importante dizer que há referências intertextuais, com citações a poemas, livros, autores e personalidades do mundo artístico em vários textos como “teogonia”, “cumplicidade”, “lua cheia”, “registros”, “ementa”, “entre eles & elas”, que alude ao clássico “Tristão e Isolda”; entre outros. Por isso, comparecem aos poemas desde a menção a um livro basilar da humanidade como a Bíblia Sagrada, mas também: Fernando Pessoa e o heterônimo Álvaro de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Rimbaud, Camões, Charles Baudelaire, Ginsberg, Amália Rodrigues, Salvador Dalí, Ferreira Gullar, James Dean, Garcia Lorca, Florbela Espanca e Ana Cristina Cesar, que aparece como Ana C. no texto “reza de domingo”. 

Ao pinçar um verso romântico de Álvares de Azevedo, “se se morre de amor” para o título do seu poema, Julio Corrêa criou uma espécie de fórmula, a fim de se analisar como o amor morre, tal qual os versos da última estrofe: “de amor não se morre / se morre de desamor / de abandono / de desgosto / de maldade / de inveja / de ais.” 

A interdisciplinaridade está presente no belo poema “desencanto” em que a linguagem matemática conversa com conceitos gramaticais ou do vernáculo. A relação amorosa foi concluída com o desejo: “esqueça que fui o sujeito simples / do seu frio cálculo matemático / verbo irregular no seu plano cartesiano”.

No plano linguístico, há alta carga imagética, com metáforas ousadas, prosopopeias, antíteses, entre outras figuras, além da presença de rimas, adjetivos a clarificarem substantivos, como se nota em passagem do poema “tarde leve”, no qual o eu lírico passa pela praia e observa “anjos renascentistas / (...) / em trajes de banho / fotografias virtuais // (...) / meus olhos safados e dissimulados / fitam por baixo dos óculos de sol / esses filhos narcisos à beira-mar”. Paralelismos também aparecem em “moedas distintas” ou em “marinheiro galante”; texto em que saltam aos olhos versos iniciados nas cinco estrofes, com o pronome pessoal oblíquo e o verbo no futuro do presente do indicativo (“me farei”), o eu lírico se transforma em “abraço”, “sol”, “céu”, “ilha”, “tudo” para alcançar a expansão do sentimento amoroso.  

É diante deste “Entre Romeus”, que Julio Corrêa escreve entre pecados e culpas e diz: “eu construo poemas / e ainda me absolvo”, porque “escrever poemas cura mazelas / sequelas tristes de vidas passadas”, em “sincretismo”, ratificando a grandeza desta Poesia, com P maiúsculo.

* Professor e escritor. Em 2017, representou o Brasil no IV EPLP, Lisboa. Participa de mais de 200 livros coletivos. Consta em mais de 600 jornais, revistas e alternativos. Recebeu mais de 100 prêmios. Teve textos traduzidos para inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, holandês e chinês. Publicou 14 livros: 10 de poemas, 3 peças de teatro e o livro de contos “A vida sem disfarces”, Prêmio Nelson Rodrigues, UBE/RJ, 2019. Recebeu o título de “Melhor Autor Apperjiano 2019” pelo conjunto da obra.



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Livro Miopia Social

            "Miopia Social" (2019), Editora Penalux.  Miopia Social é de uma autêntica e terrível atualidade, especialmente se julgarmos o atual contexto político-social brasileiro, profundamente marcado pelos radicalismos, por uma onda de pensamento extremista, um claro neo-fascismo que nos ronda e, cada vez mais, conquista novos adeptos, infelizmente, a maioria jovem. Nestes tempos sombrios, anárquicos, desestabilizados em todas as instâncias, acho que a Poesia pode exercer um papel de ligamento, ou religamento, no sentido mais antigo do termo latino “religare”, que em Português deu a palavra “religião”. A poesia pode ser este “religare” no sentido que religa os sentidos e os sentimentos, desperta ódios e paixões, atrações e distâncias, frieza e tesão.

Leandro Garcia
Doutor e Pós-Doutor em Estudos Literários pela PUC-Rio. Professor Adjunto
de Teoria Literária da Faculdade de Letras da UFMG

       

Currículo Literário



Julio Corrêa, carioca, filho de José da Silva Corrêa e Cecília Quintal Corrêa, é oficial da Marinha, ator, poeta e escritor, pós-graduando em "Estudos Literários" e em "Artes Cênicas". Publicou os livros de poesias "Íntimas Sensações" (2005) e "Substantivo Desvairado-Sedutor" (2007), e o romance "E-mails para Clarice" (2009). Possui várias premiações literárias, entre as quais se destacam: 2015 (1º lugar no I Concurso de Poesias Homoafetivas do RJ, 3º lugar na 27ª Noite Nacional da Poesia – UBE-MS, finalista no V Concurso de Poesias de Ourinhos, 3ª Menção Honrosa no XXXVIII Concurso Literário Felippe D’Oliveira); 2014 (1º lugar no 27º Festival de Poemas de Cerquilho, 1º lugar no Prêmio FEUC de Literatura, finalista do Prêmio SESC/DF de Poesias, Prêmio Incentivo no 32º Concurso Literário Yoshio Takemoto); 2009 (1ª Menção Especial - Honraria Destacada - no Prêmio Nova Poesia Brasil - RJ, finalista do 9º Concurso de Poesias da UFSJ); 2008 (1º lugar no V Concurso de Poesias do Sana da Biblioteca Pública Municipal Osmar Sardenberg, 2º colocado no Concurso Nacional de Poesia de Mogi das Cruzes, Menção Honrosa no 26º Concurso Literário Takemoto, finalista do Prêmio SESC/DF de Poesias, finalista no 43º Festival de Poesia de Paranavaí, finalista e melhor intérprete do Prêmio FEUC de Literatura, finalista no VII Prêmio Literário Livraria Asabeça, 10º lugar no 4º Concurso Literário de Suzano); 2007 (Menção Honrosa no II Concurso Claudionor Ribeiro de Contos da Academia Cachoeirense de Letras, Menção Honrosa no 12º Concurso de Poesia do Município de Valinhos, Moção de Aplausos pela participação na “Semana de Campo Grande” pela Câmara do Rio de Janeiro); 2006 (1º lugar no 11º Concurso de Prosa do Município de Valinhos, Prêmio Expressão Cultural da Coordenadoria Regional da Zona Oeste do Rio de Janeiro, finalista e melhor intérprete do Prêmio FEUC de Literatura, 3º melhor intérprete do 19º Festival de Poemas de Cerquilho, 8º lugar no Prêmio Cataratas de Contos, Menção Honrosa no II Concurso Literário Prado Veppo da UNIFRA); 2005 (finalista e melhor intérprete do Prêmio FEUC de Literatura); 2003 (2º lugar no III Festival de Poesia do SEERJ); 2002 (finalista do VII Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja da APPERJ, finalista do Prêmio FEUC de Literatura); 2001 (2º lugar e melhor intérprete na XXII Ciranda de Poesia da Biblioteca Popular de Jacarepaguá, finalista no II Festival de Poesia do SEERJ, finalista no 3º Prêmio de Literatura FAMA em Prosa, Menção Honrosa no II Concurso Pedra Pura Poesia, finalista no VII Concurso Internacional Literário de Outono, finalista no IV e no V Concurso Literário "A Palavra do Século XXI"). Foi coordenador do Concurso de Poesias da Casa do Marinheiro de 2007 a 2011. Em 2018/2019, atuou como protagonista do espetáculo O Médico à Força, uma comédia de Moliére.
           

terça-feira, 31 de maio de 2011

Poemas de Viagem Nº 02


CARTÃO POSTAL

 

Seu rosto é um lindo cartão postal

que não canso de admirar.

É a Pedra da Gávea

a Vista Chinesa

a Marina da Glória.

É imagem que penetra em minhas vistas

percorre meu cérebro

invade meus sonhos

transa com meu saber

sem pedir permissão.



Seu rosto é flor de girassol

banhada pela estrela de quinta grandeza

girando-girando-girando

em meus momentos de solidão.

É luz vermelha que ilumina o noturno do quarto

arrebenta minha calma

destrói minha quietude

atropela meu egoísmo

suga meus lábios

sem aviso-prévio.



Seu rosto é um sorriso

que sempre me ganha

que sempre me assanha

que sempre me faz ver o mundo

de uma ótica diferente.



Sou a Baía da Guanabara

e você meu Cristo Redentor!

 
Poema escrito na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro.
 
 
 





sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poemas de Viagem - Nº 01

REGISTRO


O Tejo

silencioso

ao meu lado

reflete a face de um outro ser

que em mim ainda não havia se revelado



Águas fortes

longas

azuis

de amplos significados



Uma maturidade

uma serenidade branca

toma toda minha caixa craniana

e meus olhos curiosos

possuídos de uma tranqüilidade ímpar

consegue ver o futuro ao longe

sem desespero



Caminho pelo cais de Lisboa

relendo versos de Pessoa

ouvindo o vento cantar um fado

no timbre inconfundível de Amália Rodrigues



Um amor antigo sai da estação Apolônia

e passa próximo ao alcance dos meus sentidos

Recito Álvaro de Campos no ar



Engraçado

O amor que ontem sufocava o grito

o beijo dentro do meu peito

o desequilíbrio do meu irracional

hoje é flor lançada ao mar

seguindo a correnteza

a representação do nada

no esconderijo do Atlântico



A falta

a ausência covarde

a incompreensão do ser amado

já não me dói

Abstraí seu nome

seu canto

seu domínio do meu pensamento



Na "Terra Mãe de Camões"

descobri a força da minha fragilidade

libertei minhas mãos da racionalidade das luvas


Estou livremente lúcido


Mergulho os pés nas águas Lusitanas

 
Poema escrito em Lisboa, Portugal, as margens do rio Tejo.


Rio Tejo
Monumento aos Descobridores


Estátua em bronze do poeta Fernando Pessoa



Monumento à Luiz de Camões

Museu da Casa do Fado


Muro da casa de Fernando Pessoa 

Entrada da casa onde Pessoa viveu os últimos anos de vida



domingo, 15 de maio de 2011

Chá Literário no Colégio Souza Lima

O colégio Souza Lima comemorou, no dia 20 de abril, "70 anos de literatura: do modernismo ao pós modernismo" com concurso de poesia, palestra e apresentação literária das turmas de ensino médio, organizado pela direção e professores. 
Fui convidado pelo professor e amigo Filipe Vale. Apresentei meus livros e falei de poesia.  Todos foram bastante receptivos. O evento foi muito proveitoso e emocionante. Parabéns aos organizadores! Continuem proporcionando literatura aos seus alunos sempre.

Os alunos
Os alunos Caroline, Stela e Rodrigo, o professor Filipe e eu 

Autógrafos para os professores
Eu e Filipe vale




terça-feira, 10 de maio de 2011

Matéria do Jornal O Globo sobre os poetas da Zona Oeste do RJ

Eu estou na foto. rsrsrsrsrs.



Capas dos meus livros de poesias

 Adoro as capas dos meus livros. São poemas!

Frente

Verso

Frente


Verso
Os meus livros são a minha vida! São filhos que me enchem de orgulho e prazer!



terça-feira, 26 de abril de 2011

Palavras do Mestre

Apresentação da peça "Palavras do Mestre: Paixão de Cristo" pelos alunos do II Curso de Teatro da Casa do Marinheiro e ex-alunos da I Turma no dia 23 de abril no Cine Amazônia Azul. Texto e direção Tania Dias. Participação especial Júlio Corrêa. A apresentação foi um show.

O anjo Gabriel, José, Maria e o menino Jesus

José, Maria e o menino Jesus no Templo

Jesus é preso pelos soldados
Jesus e Pilatos
Elenco

Jesus com sua mãe e Maria Madalena


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Participação no evento "Quintas Intenções"

Local: Teatro Arthur Azevedo em Campo Grande
Realização: Escola Livre de Teatro
Apresentação: Neris Cavalcante

Matéria sobre a minha participação extraída do Blog Escola Livre de Teatro
    
"Júlio Corrêa, poeta e ator, deslizou até o palco interpretando uma poesia de José Régio (Cântico Negro), deixando a platéia boquiaberta. Ao ser perguntado se sua família acreditava em seu talento Júlio Corrêa diz que sua mãe sempre o incentivou, mas que também ele tinha consciência de fazer por onde, “O importante é acreditar naquilo que te alimenta” diz. O segundo convidado da noite também falou um pouquinho sobre sua experiência de publicar livros. O primeiro livro de Júlio é “Intimas Intenções” seguido de “Substantivo Desvairado Sedutor”, e o mais recente “E-mails para Clarice”, Ensaio Sobre o Medo de Amar que você encontra a venda na http://www.estantevirtual.com.br . Júlio é militar, e coordena a parte cultural da Casa do Marinheiro com concurso de poesia e curso de teatro, além de participar do Circuito Literário Conversa com o Verso".

Foto do último Quintas Intenções - 1ª temporada
Artista e pessoas do meio cultural da zona oeste do RJ

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Como adquirir meu livro "E-mails para Clarice"

Na loja Silbene em campo Grande - RJ, no site da All Print editora, no site da Livraria da Travessa, entre outros.

Seguem alguns fragmentos do livro:

"Acordo no meio da noite, na verdade não dormi hora nenhuma, e procuro suprir a ausência de algo que não decifro por completo: a busca da própria coisa pela coisa-pura que simplesmente é. Isso me angustia, em parte, pois faz despencar sobre minha cabeça-aprendiz o mundo que desconheço. Essa impossibilidade diante do desconhecido, de certas revelações às quais ainda vou ser apresentado, causa certa ebulição em meu estômago.
Sou chamado pelas horas noturnas para cumprir algum tratado que não foi assinado por mim. Será que fui premiado ou...?
Ébrio, cambaleio em visões disformes que se formam no canto da cama, entre a parede e o armário. Estou só neste momento, no vazio do quadrado azulado pela cor do céu que se estende pela janela do mundo.
O que existe de comum entre o armário branco e eu?! Guardamos vulneráveis segredos internos.
Fecho os olhos. Giro no ar... Falo frases sem conexão com o trem de ontem, cujo bilhete de passagem ainda guardo no bolso da calça.
O quarto é negro, não enxergo a ponta do meu nariz. Sei que estou completo da minha matéria, no entanto meu espírito brinca de roda com outros tantos que as místicas energias astrais mergulham em meu tabuleiro de xadrez. Sou todos: Bispo, Pião, Cavalo, Torre, Rainha, Rei... Xeque-mate!"

"A minha impaciência é não chegar na frente do amanhã. É constatar que pode me restar apenas Um sopro de vida...Tenho que correr.
Arranho as paredes do banheiro enlouquecido de desejo, porque a junção dos pronomes possessivo e de tratamento me faz sentir cada coisa... Boa, louca, inusitada, confusa, dolorida! E me lanho, me mordo, me aperto, me delicio em pensamento. Desarrumo as toalhas do banheiro extasiado de delírio... E me absolvo, me permito à devassidão. E me solto, me lanço no ar feito papel picado. E me admito em intimidades Para não esquecer quem sou e o que sou. Meu espelho é interno.
Estou pronto para levar todas as broncas de Deus, pois sei que não sou perfeito, nem poderoso, nem certo, nem totalmente errado. Então venha, meu Deus! Venha me dar todos os cascudos! Venha me dizer que estou tomado por equívocos, que não devo agir assim, desregulado! Porém, saiba que a minha ação é genética e o meu descontrole não tem cura. Não há Diazepam para a minha hiper-atividade-sentimental. O que me salva é o próprio amor. É o ir ao encontro de..."

"Assim, quando percebi que estávamos perdendo o entusiasmo do primeiro encontro, deixei os medos encarcerados na saboneteira e decidi desabafar. Saí falando tudo o que pensava, tudo o que sentia, tudo o que queria, sem ordenação ou controle. Não podiam restar dúvidas sobre as minhas intenções. Mas é tão difícil entrar no trem quando as portas estão se fechando... Há de se ter um esforço redobrado.
Difícil aceitar um sentimento, que nos parece contrário ao modelo imposto como único exemplo de certo, durante anos e anos... Fácil é se esconder, fechar o cadeado, matar o abraço e dormir. Difícil ver o mundo com os próprios olhos, depois de tanto treinamento inverso. Fácil é se acovardar, forjar um sorriso, abortar a frágil sensibilidade e dizer Não, não sei! Talvez, quem sabe...
Meuvocê me ouviu atenciosamente, com uma expressão sem expressão, com um apertar de lábios sem sentido de prazer que me decepcionou. Ficou parado por longos segundos de eternidade. Após o silêncio profundo que nos atingiu, disse, meio sem jeito, meio sem cor, meio sem graça e sem encarar meu rosto, olhando para um ponto distante, que já sabia das minhas intenções desde o início, mas não tinha certeza se essas eram as suas... Rapidamente mudou de assunto. Sorriu... um pouco forçado. Misturou uma série de casos sem sentido e sem importância. Ficou mais intranqüilo. Parecia estar com dúvidas (e estava) em relação à vida... Em sua face residia o medo de se envolver numa nova descoberta de Ser. De Ser, mas não de Estar. E ficou sendo o que não era: trem fugindo da estação. Ele preferia estar com suas velhas teorias... e Estar implicava em não Ser."

E-mails para Clarice

Não sei quem livrará meu destino do arquétipo Cavalheiro Solitário.
Estou chafariz sem água, caneta sem tinta, MSN sem conexão, celular sem créditos, bicicleta sem rodas... Estou a tentativa de realização do gol, após os quarenta e cinco minutos do segundo tempo numa final de copa do mundo. Um desastre ambiental!
Quem salvará meus lábios ressecados pela falsidade do batom?
Estou testemunha da minha própria defesa, diante da acusação do mundo. Estou pés descalços correndo pela areia da praia, tocando levemente as águas geladas desse Rio quarenta graus. Estou vento marítimo. Estou átomo. Estou tanta coisa que me esvaziei um pouco de mim.
Um dia mato a minha própria charada.
 
(Do livro "E-mails para Clarice: ensaio sobre o medo de amar"

E-mails para Clarice

Estou Juiz no Tribunal de Última Instância. Vou absolver os dentes com aparelhos, as orelhas furadas, A mulher que matou os peixes, o cabelo carregado de gel, o piercing na sobrancelha, a camisinha tatuada... Sou favorável à vaidade inteligente e reprodutora.
Reproduzir é talento quando se produz a si mesmo sem ferramentas mirabolantes ou milagrosas. É o saber fazer.
Reproduzir é investir no ato do abraço quando a lua não espera pela noite e não se apavora com os raios do sol. É a coragem de ousar.
Reproduzir não é só RE-produzir. Digo que reproduzir é criar o que antes não existia concretamente na falsa existência, ou seja, é dar forma, mesmo que informal, ao sopro, à poeira, ao suspirar, às Pulsações... à toda abstração sentida internamente.
Posso parecer confuso no que construo de informações, porém sou uma espécie de labirinto e não devo fugir do signo lingüístico que envolve meu nome: pronome-impessoal.
Quero que as pessoas me investiguem e me descubram aos poucos.
Sou lagarto se adaptando ao clima da vegetação.

(Do livro "E-mails para Clarice: ensaio sobre o medo de amar)

E-mails para Clarice

O amor é para ser levado a sério. Ele não gosta de prateleira, nem brinca de esconde-esconde. Na verdade, ele não gosta de ser levado. Ele se instala. É dono, senhor intransferível.
O amor é uma avalanche num desfiladeiro – precipício de boas intenções. Contém todas as reticências, todos os pleonasmos. É o ponto final iniciando o período. É o desvario ambicionado das emoções.
O amor não pula numa perna só, como o saci-pererê. Ele usa todas as que lhe são alternativas.
O amor aniquila projetos a curto ou longo prazo. Concede esperar, mas cobra uma atitude e as contas com reajustes. Não aceita o faz-de-conta.
O amor é imperioso, sendo que, em fúria, se permite a doçura extrema e se torna vulgar e frágil como um favo de mel.
O amor é um par em um. É a célula recomposta. É a correspondência plena.
O amor é uma estrela de primeira grandeza. Ilumina a quintessência do universo, do interior para o exterior.

(Do livro: E-mails para Clarice)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Noite de autógrafos na Livraria da Travessa no Centro Cultural Banco do Brasil

Eu e minha amiga Neide Amback - poeta e artista plástica
Livraria da Travessa do CCBB

CCBB


Autografando E-mails para Clarice








Bienal do livro RJ 2009 - Lançamento do romance "E-mails para Clarice"

Tarde de autógrafos na Bienal do Rio
Recebendo os visitantes

Capa de E-mails para Clarice